{"id":6640,"date":"2023-10-04T21:45:18","date_gmt":"2023-10-05T00:45:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.montale.com.br\/?p=6640"},"modified":"2023-10-04T21:45:18","modified_gmt":"2023-10-05T00:45:18","slug":"fabular-o-curriculum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.montale.com.br\/it\/fabular-o-curriculum\/","title":{"rendered":"FABULAR O CURRICULUM"},"content":{"rendered":"<p>T\u00e3o logo aceitei o honroso convite para escrever este artigo, n\u00e3o tive d\u00favidas: deveria falar de minha mania de \u201cfabular\u201d a escola.<\/p>\n<p>Gosto como o fil\u00f3sofo franc\u00eas Gilles Deleuze (1925-1995) define o termo \u201cfabula\u00e7\u00e3o\u201d: \u00ab\u00e9 uma forma de cria\u00e7\u00e3o, de pensamento que faz crer em um novo real\u00bb. Segundo ele, \u00abs\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel fabular quem foi afetado por algo, maior que ele mesmo, algo com o qual ele n\u00e3o pode responder com seus recursos habituais, que foge de seus movimentos ordin\u00e1rios\u00bb. Em resumo, pode-se dizer que o indiv\u00edduo se deparou com um problema que o levou a fabular.<\/p>\n<p>Ora, pensando analogamente, trazendo Deleuze para o nosso contexto, fa\u00e7o aqui uma pergunta ret\u00f3rica: n\u00e3o dever\u00edamos nos questionar se n\u00e3o ser\u00e1 a fabula\u00e7\u00e3o das coisas que nos salvar\u00e1 nestes tempos de pandemia?<\/p>\n<p>De minha parte \u2013 e n\u00e3o sozinha \u2013 devo dizer que, h\u00e1 tempos, tenho tido o h\u00e1bito di\u00e1rio de fabular as coisas, as pessoas e, em especial, a escola. Ou antes, os alunos. Neste caso, come\u00e7o invariavelmente pensando em como deve ser dif\u00edcil para eles ficarem diariamente aprisionados por sirenes, vozes e compassos; sufocados entre espa\u00e7os, curr\u00edculos e vontades (e ainda agora quando est\u00e3o isolados em casa). Nesse meu particular processo de fabula\u00e7\u00e3o com eles, sigo a imagin\u00e1-los livres, mas amplamente conectados por vontade aos seus projetos de vida ainda que necess\u00e1rio seja insistir que eles reconhe\u00e7am tais projetos.<\/p>\n<p>Fabular as vidas e os projetos dos alunos, crian\u00e7as, adolescentes e jovens requer muita coragem, planejamento e respeito. E n\u00e3o entro aqui no m\u00e9rito das pedagogias, pois h\u00e1 muito o que se debater sobre elas e suas l\u00f3gicas inovadoras. Entretanto, prefiro mesmo \u00e9 fabular a minha pedagogia. Nela posso criar de verdade e com toda a aud\u00e1cia, perguntando sempre: o que mais arde ou queima em voc\u00ea hoje? Quais s\u00e3o as quest\u00f5es que est\u00e3o l\u00e1 fora e que mesmo assim o impactam? Caso tivesse todo o tempo de que precisa, a qual assunto, quest\u00e3o ou problema voc\u00ea se dedicaria, com vontade? O que o intriga, encanta, move? Quais s\u00e3o suas perguntas e de que respostas precisa neste instante? E, finalmente, que tal fabular agora mesmo tudo isso, num projeto seu, no qual eu possa me incluir?<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, a escola est\u00e1 muito distante deste projeto de fabular vontades e sonhos, at\u00e9 porque naquelas outras pedagogias baseadas em algo, apesar de se afirmar que os alunos est\u00e3o no centro da aprendizagem, eles nunca est\u00e3o l\u00e1 de verdade. No m\u00e1ximo, s\u00e3o coadjuvantes de um projeto para o qual far\u00e3o render produtos ou solu\u00e7\u00f5es para os que ainda creem na disciplinariza\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo. Assumo aqui\u00a0<em>mea culpa<\/em>\u00a0por ser professora, pedagoga e por estar nas escolas h\u00e1 tanto tempo, mas entendo que o valor atribu\u00eddo \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o (e \u00e0s escolas em geral) consagra a sobreviv\u00eancia de arqu\u00e9tipos caducos, personagens descolados da vida. S\u00e3o justamente eles que est\u00e3o gritando por uma fabula\u00e7\u00e3o, ainda mais nestes tempos.<\/p>\n<p>Fica aqui a sugest\u00e3o de sonhar a escola e voc\u00ea bem sabe com quem. Como? Sugiro uma pedagogia que valorize projetos e que consiga dar conta dos saberes e urg\u00eancias. Imagino a escola e seus agentes, apenas prontos para ajudar os alunos a digerir e popularizar o conhecimento, garantindo que, desta vez, n\u00e3o sejam aprisionados pelos curr\u00edculos, sirenes e espa\u00e7os.<\/p>\n<p>Tenho fabulado muito: sob o pretexto da Cultura da Paz (2010 a 2015), das Vozes Ancestrais (2016), das Hist\u00f3rias sobre \u00c9tica (2017), das Brincadeiras com o Cubo (2018) e dos Podcasts Narradores de Direitos (2019). Fabula\u00e7\u00f5es em andamento: Observat\u00f3rio Povos Origin\u00e1rios, Laborat\u00f3rio de Vozes e Cia. Estou me aperfei\u00e7oando nisso ainda, mas j\u00e1 ouso pensar uma fabula\u00e7\u00e3o coletiva, transdisciplinar, entre curr\u00edculos, s\u00e9ries e n\u00edveis de ensino. Obviamente, com eles.<\/p>\n<p>A verdadeira inova\u00e7\u00e3o \u2013 ou fabula\u00e7\u00e3o \u2013 est\u00e1 em compreender que, na escola, os indiv\u00edduos sempre estar\u00e3o \u00abafetados por algo maior que aquilo que nos dispomos a oferecer\u00bb; e que necess\u00e1rio ser\u00e1 fabular generosamente com eles para al\u00e9m dos \u00abrecursos habituais e dos movimentos ordin\u00e1rios\u00bb.<\/p>\n<p>Helenice Schiavan<br \/>\nProfessora de L\u00ednguas Portuguesa<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, 24 de junho, foi um dia de muita festan\u00e7a!<br \/>\nPais, alunos e comunidade se reuniram para celebrar as tradi\u00e7\u00f5es juninas.<\/p>","protected":false},"author":3,"featured_media":6641,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-6640","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.montale.com.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6640","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.montale.com.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.montale.com.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.montale.com.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.montale.com.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6640"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.montale.com.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6640\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6642,"href":"https:\/\/www.montale.com.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6640\/revisions\/6642"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.montale.com.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6641"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.montale.com.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6640"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.montale.com.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6640"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.montale.com.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6640"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}